29
out
10

Um cigarro e uma fome

“Recuperei um jeito de fumar olhando por detrás das janelas, vendo o que ninguém veria”

Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias


Para Tony. Meninos grandes não choram…

Mas meu instinto noturno me fez acender um cigarro: eu soprava então a fumaça através da janela aberta para a madrugada quando me dei conta, era tarde, e no entanto, eu não voltara, não daqueles segundos em que soltava sua mão, eu dando grandes baforadas para o ar gelado, e céu de chuva fina, cadê você? você, cadê, eu perguntando pro silêncio, onde está você agora?, porque eu no silêncio e a chuva vinha, a chuva vindo fina, faz dois dias que nem sequer sua voz, ali na via expressa agora só os carros, sem jardim e campo verde, meu bem, a via expressa e os morros de casas, um horizonte de cimento, a cidade miserando, e eu com fome de cigarros, esse aqui ainda não ardera todo, eu ardia, só os ônibus, eu de pé fumando por detrás da janela esperaria você descer do próximo, de onde estava podia se ver bem a parada de ônibus, mas chovia fino, 1 da manhã, a parada vazia, e sim, era feriado de 12 de outubro, já 3 comprimidos daquele tranqüilizante, meu bem, mas eu muito vivo, vai ser longa essa noite e de repente os cigarros que me iam acabando, sua mão, eu pedira pra soltar sua mão, há dois dias você que me prometeu: amor? seria esse seu erro maior? e você que não descia do próximo ônibus, esse que parou ali agora, venho perguntando faz 3 dias, meu bem, porque você quereria se doar, e eu lembro você dizer então pra mim: tomara que você encontre seu rumo, e foi no exato momento em que tremendo soltei sua mão e desde esse dia, meu bem, desde esse dia que.

E que repente vejo que me acabou um cigarro, fumaria o resto do maço, fumaria um após outro, mas estou muito vivo e ardendo, tenho medo de como percebo o tremor nas mãos quando tenho um cigarro entre os dedos, mas hoje nem a sua mão, então vou me deitar um pouquinho, meu bem, de pé é tão mais escuro, me deito curtindo fome, curtindo a fome, porque essa noite vai ser longa: hoje, faz dois dias que não como, nem sequer quando amanhecer, nem quando amanhecer, meu bem.

27
out
10

Refluxo à porta

“Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.”

Clarice Lispector, A experiência maior


A dois passos dessa porta, e se você não souber a dois passos o que fazer do dia? Porque você ia chegando, chave na mão, a mão que treme, a boca sem saliva, chegando, e de repente. Estará perdido? E de se achar, quando desce do ônibus você todo vem tremendo, o movimento pós-moderno na rua, mas dentro de você o susto no peito, ele percebeu que você olhou pra ele, você que imaginava, mas imaginava o quê?   dentro ou fora você disfarça, você quererá ser igual a ele?  um instinto te chama, mas você – só pelas janelas o movimento da vida, e você controlando as mil possibilidades, controlando, controlando o que? antes  de levantar e descer do ônibus e torcer pra que outro igual a ele, que quereria você ser igual a ele -  ele?  não cruze seu caminho até chegar à porta, chegou e. Que fazer? Eis você aí na porta. Você pensa nas olheiras, até pouco não esses olhos fundos, a qualquer hora isso explode, puta-que-pariu, você diz a si mesmo e se sente feliz, sente-se feliz por ter coragem de ao menos uma regra quebrada, os outros, cuidado com os outros, você numa cidade, se alguém grita você todo se amargura, fica despeitado, você ofendido. Mas agora, diante da porta, a dois passos, uma arritimia, uma gana de salivar, você querendo estar vivo, e os outros? Só um comprimido não adiantará, dois ou três e você nem saberá quem é, mas você sabe a dois passos da porta e uma chave que treme na mão? Quatro, cinco comprimidos e uma boa dose de álcool, um cigarro pra finalizar, e você não pulsa mais – mas quer viver, quer ser igual àquele filme, com trilha sonora e tudo, você um ator de Hollywood, feliz pra sempre, você até então sem trabalho, você até então não tão pós-moderno, você querendo se sentar num café francês, ou , você que pediu pro motorista do ônibus passar deixar faltando cinco centavos, tudo isso você ali a dois passos da porta, sem trilha sonora, cachorro latindo, linha de pipa nos fios, quanto tempo terá passado de você aí frente à porta? Os outros, e os outros, aos encontrões de arritimia, você mete a chave na porta – hoje, você diz, sonoramente e como viu direitinho naquele filme, hoje vou mudar minha vida -  e sorri: só por dentro ainda, só por dentro. Porque ao sair haverá ainda os outros: e, se entre eles, você se descobrirá – ou se escolherá quem é.

27
out
10

Carta de um fumante – com referências.

“Ah, tivesse eu sabido do que ia acontecer no quarto, e teria pegado mais cigarros antes de entrar: eu me consumia na vontade de fumar”

Clarice Lispector, A Paixão segundo G.H


E  surpreendido no meio da noite quando me perguntavam: você está perdido? era – mas é que questionado assim, como um susto, me restava dizer: não, é que vou comprar cigarros. Teria eu cigarro nos bolsos? sim, sempre algum, meio amassado, pois nunca se sabe quando vai acontecer novamente, nestes dias de pouca sobriedade é de cigarros e bolsos que tenho precisado, quando pressinto que vai ser, acendo  cigarros, se você pudesse ver como estão minhas mãos agora, a cor dos meus dentes, e isto, isto que tenho por dentro, se você visse – mas eu não sei se são os anos de nicotina ou álcool ou se é… Eu vinha do lado oposto, no meio da noite dentro de uma cidade – porque cigarros tem a ver com cidades – até que a mim me questionaram: e o que é que no meu olhar dizia que eu estivesse alguma vez perdido? Eu que estava preste a vomitar também: coelinhos.Certas coisas, certas coisas devemos nunca perguntar – e se se pergunta, nunca, nunca no meio da noite, não se deve perguntar a alguém, não se olhos vivos e fundos falarem – você já viu como um cachorro vivo nos volve um olhar vivo que fala? “O cavalo lhe volveu uns olhos que falavam”, foi em Tolstói que lo? mas antes ainda nunca em susto, em surpresa jamais e. “Por la blanda arena que lame el mar, tu pequena huella no vuelve más”, eu ia ouvindo – no meio de uma cidade em noite me desmontavam – antes sequer que eu tivesse tempo de acender cigarros e. “ontem, durante horas e horas perdi minha montagem humana” é o que eu diria a quem me abordava: eu não contava que me alcançassem antes que eu chegasse ao outro lado, não, não era assim que eu planejara, não era assim que.

Eu: que  agora poderia acender-me um dedo  -  e fumar

20
out
10

Medo

Quem beber desta água tornará a ter sede”

(Evangelho de João,Novo Testamento)


Eu chamava por mim, tentava segurar-me, mas minhas mãos não conseguiam. Havia um buraco aberto,um buraco negro, sugando com uma força incrível. Como um veículo numa longa curva, a inércia, a força centrípeda. Não adianta gritar porque ninguém vai ouvir. O buraco aberto, sugando, se cair não saio mais de lá. Eu to no escuro, não dá nem mais pra respirar. Abri a porta e entrei no quarto escuro pra fugir do medo.Eu não sabia que havia um buraco lá dentro. No início, espreitei por uma fresta o corredor que percorri, depois a porta não mais se abria. A porta não abre mais. Abri o baú escuro e guardei meus segredos lá dentro. O baú cheio de segredos, agora não quer se fechar mais. Eu me desespero, meu segredos expostos. Fico sentado em frente ao baú, não deixo ninguém se aproximar, há coisas escondidas lá dentro. Uma respiração curta na escuridão. A falta de oxigênio. O ar carregado. O fio que sai de dentro do baú. Agora estou amarrado..Silêncio.Um cão que ladra na noite, algo acontecendo lá fora, na noite, o pêndulo de um relógio antigo que balança cada vez mais rápido,incomum. Minhas mãos e pernas que não param um segundo, to amarrado e tudo querendo se soltar. Todo esse desespero, eu com medo de cair de vez no buraco. Eu amarrado, bato na porta. O bater é surdo, sangra, ninguém ouve. Sinto na boca o gosto do meu próprio sangue.

19
out
10

A consciência do medo contra mim

- Ah, mas eu sei dos teus segredos…Você faz tanto esforço pra esconder, pra guardar, e não adiantou, agora ta tudo saindo pelos poros,quem olha nessa tua cara já sabe o que ta acontecendo. Cala a boca, porra! Não terminei de falar ainda! Você acha que eles não tão sabendo? Porque não levanta essa cabeça? Ta com medo de me encarar, tu não é homem não,hein? Eles já perceberam que tem algo errado aí. Espera aí que ta chegando alguém, limpa esse olho rápido… E vê só a cara dele quando olha pra você, ele ta vendo que tem alguma coisa, to falando…é agora, ta chegando….!

Súbito, outro bater surdo do lado de fora. Eu caído no chão, gemo, a cabeça sangrando, arrebentada, se abriu de pensamentos, se abriu de tanto bater na porta. A poça de sangue à volta. Eu preciso que alguém entre pra me ajudar, mas estou entre o buraco e a porta e o baú transbordou de segredos. Penso, ainda outra vez, mais um segundo. Um jato de sangue jorra. O bater surdo continua do lado de fora. Entre os segredos e as feridas, o sangue coagulando no chão, chego à conclusão alguma. Já gostei do meu próprio sangue um dia.

19
out
10

Caminho

meu caminho

trilha certa se perde na reta

trilha reta se confunde na seta

a ponta que o sopro gira

caminho

sem saber se sou certo

quem era eu antes da reta

que não era antes d’eu cruzar

No meio do caminho

lembrei que algo ficou lá atrás

a chave, a chuva, o choro

caminho seco, sede

a chave no início, a porta

cadê?

não lembro se passou, se vem

se, cuando,existe

onde

ou

mais

19
out
10

Os segundos que precedem o adormecer


 

Hoje eu queria um adormecer leve e instantâneo, só pra que eu pudesse descansar um pouco, só isso, e depois viria alguém e me despertaria, apenas pegando em meus braços, me balançando um pouco, dizendo ser hora de acordar.E talvez então eu estivesse descansado e sereno, e a vida de todo dia ia prosseguir, não mais como antes, não mais como antes não. Hoje eu queria essa pequena morte, sem sonhos, sem lembranças, hoje eu queria muito descansar. E me apagar por um instante, não ainda pra sempre, sempre não tem fim, só um momento, e renascer depois.

Há uns segundos que precedem esse desfalecer. Continuamente me aproximo, mas ele não vem. Ele me engana, se esconde, eu o procuro. Corre veloz por entre os ares, eu ainda não sei voar. Às vezes se disfarça, me chama de longe, se enfia no meio da multidão. Ele sabe que estou cansado, não posso correr. Ele então tem pena e me deixa sentir um pouco do seu cheiro, a presença, mas se vai sempre quando chego muito perto e quando volto já não está mais.

Ontem, ainda outra vez, ele me enganou, prometeu deixar tocá-lo, eu o toquei, mas aquilo não era ele, era de novo qualquer outra coisa, das quais ele tantas vezes me prometeu que após, viriam os segundos…, aqueles segundos, e depois ele e a paz.Lembrei-me do nosso passado: atrás dele, no seu jogo de disfarces e alegorias, como um carnaval que nunca acabasse, o busquei nas noitadas sem fim, línguas e corpos que me incendiavam, a conversa de bar, falando de qualquer coisa, precisando só da companhia da outra pessoa, depois acabou o dinheiro, copo vazio, a volta pra casa, nada mais. Ele jurou descanso entre os entorpecidos: religião, marijuana, fluoxetina ou alguma dessas outras ideologias, talvez Marx. Ele jogava então outra vez comigo. E nunca estava lá.

Cigarro e cerveja me dão náusea, pessoas ,a sensação de desespero, quem sabe mais vazias que eu, sequer compreenderão meu pedido mudo de socorro. Ele disse que estaria em alguém, ele me engana, desconfio que me trai com outro. Aos poucos vou descobrindo onde ele não está.

Hoje eu queria só esse instante de descanso, não vou procurá-lo mais, estou muito cansado e o tempo parou. Eu só queria esse instante, pra acordar depois, e seguir a vida, do meu jeito simples, não há onde buscá-lo. Ele que continua correndo veloz, pelos ares, hoje eu o queria como um presente de aniversário. Os segundos que o precedem, e finalmente ele, e então a paz. Depois despertar, e respirar fundo, ele se foi pra sempre, e eu saberia voar.

19
out
10

Tão-mais-sozinho

O que o havia feito afogar-se em medo? ele volta outra vez a dores antigas, numa sexta-feira e era agosto, ele precisava de um abraço: mas e se ficasse muito longe? Era possível se estivesse lá, no longe? Ele que despertou com dor, ele que errou na rua . Ele errou: se ontem não quis voltar pra casa – se não voltasse, seria erro voltar? É que às vezes não queria, ou não podia, ou não sabia, mas ontem não quis mesmo e que se houvesse alguém além, não estivesse tão-mais sozinho e. Não. Nem um abraço de todo um dia lhe tiraria a fome, uma fome dói dentro dele, uma dor de fome é nele maior – num repente sentiu que ia chorar. É que de tanto esforço esqueceu o jeito de chorar. Não chorou

19
out
10

Madrugada no subúrbio I

“Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, sorrir pra não chorar”

Candeia

 

Vago pela madrugada, cidade de cães, meninos de rua e ratos, ando calado, mãos me tremem, só um marginal saberia minha solidão, tenho a fome e nunca como, ando com muita fome, muita pressa, anestesiado pra aguentar, três cigarros no maço amassado, um na boca, a cerveja quente na mão… malandros, trabalhadores, putas e viados circulam nas esquinas sujas. Enquanto não me acabam os cigarros, procuro meu entre-lugar entre essa gente, procuro me encontrar, e madrugada e cigarro e cerveja, se é hora de amanhecer e passou o efeito, talvez eu vá dormir com peito me doendo ou até chorar…

26
mai
10

Noite em boemia 1

Mergulhei-me ontem em boemia, meu samba só pára ao primeiro raio de sol – então choroso me oculto: até que estrela Dalva me chame outra vez

25
fev
10

Tua sede e tu

Pois que outro dia te dói então o ponto nevrálgico que te sustenta. Como se tu foras tripartido, e nesse ponto nevrálgico tu pusesses ou depositasses o mais-pesar. A obsessão toda por manter-te ereto, tu que te alienaste do produto desse teu trabalho – o trabalho silencioso, o trabalho que te triparte e te gera o mais-pesar. Todo um dia a olhar-te por espelhos, a viver da possibilidade esquecida, a insistir de dentro as desistências prévias – seria esta a tua loucura? pensarás, tens medo da hora da loucura, vens há muito pensando. Ficas pelo caminho de muitas leituras, de histórias alheias, de possibilidades e sem saber por onde é, vens tentando por um minuto um silêncio, tal é tua sede de sentidos. É a dor nesse teu centro nevrálgico, é essa dor que te fazes ver que também és feito de ossos. Tens, tens medo de que amanhã te apanhes mais um dia iguais a esses que tens vivido – amanhã virá a loucura? O impacto, um impacto de ter tentado escapar por minutos – e a tua sede. Não sabe se terás outra vez de achar um novo modo de prender-te só para escapar-te – lembras que há alguns dias te prendeste terrivelmente? Agora estás a sós com tua sede e é no ponto nevrálgico que sentes. É tripartido que não sabes até quando te sustentarás.

25
fev
10

Espiral de fumaça

Que sequer dera até então meu primeiro passo: era enredado que estancara ali, na fumaça negra que eu respirava havia dias – e que teria mesmo, um medo de dizer que eram anos. Na mesma história repetiam-se iguais os discursos, mas o medo não, meu medo agora era sofisticado, um acumulado de muitas mil horas. Eu estancara de susto e à volta de mim a espiral de fumaça negra – e digo fumaça por achar duras palavras como rancor e ódio, por recusar ver a mesma dureza da crosta que deixei formar em mim como cicatriz. Se eu não der o primeiro passo para fora da espiral de fumaça, se eu não der este primeiro passo para fora daquilo em que me encolho em espanto, terei de me acostumar com o submundo possível que me inventei. É aqui que quase não respiro, que me firo com espinhos que me deixei crescer. É o onde resisto no meu modo particular de ausência e dor. Então eis que algumas coisas já me começam a não construir sentido – não, não posso dizer ainda descontrole: é que já me é muito dizer desespero. Sei, sei que daqui mal-vejo e mal-respiro, eu grito para dentro de mim. Não vou perguntar até quando, isto é acostumar-me ao submundo possível e que se resisto é porque já acostumei – o que equivaleria a dizer: descontrole? Mas isso eu não quero ainda. E então não me perguntarei, arranco a crosta já pegada à minha pele, me podo os espinhos, e então eu tento, de dentro da fumaça negra que é em espiral e que respiro, eu tento sair – não tenho coragem de saber que a espiral tem interstícios, e que a saída é esse próprio labirinto. Um labirinto que é em espiral.

19
fev
10

Restos de começo de carnaval

É que estive uma vez mais no meio daquelas muitas pessoas. Eu usei pretextos, falei de sonhos, comprei mais barato uma dose de cachaça antes de mendigar a cerveja alheia. Eu sei o que é precisar num momento exato de um cigarro, eu que fumei até doer os pulmões. Nem todos têm desespero, alguns parecem até felizes, sei lá que dores escondem, sei lá se vão beber até acabar o dinheiro, eu vou sem saber mesmo como volto pra casa. Agora não tenho nem pra um a varejo, eu que ontem fumei pedantemente dois maços do cigarro mais caro. Nem pra tomar uma agora me sobrou moeda, talvez por isso tenho as mãos tremendo, eu que esqueci hoje de manhã o anel que comprei de um índio em Brasília, num motel ao lado da estação de Madureira.

01
fev
10

Uma linda manhã de natal

 “Liberdade era uma palavra imensa, cheia de mistérios e dores”

 então veio chegando a hora, só viu a luz que esteve no escuro, meu bem, rasgando o véu do templo de cima a baixo, a hora em que ele pediria um pouco de amor, ele se retalhando um pouco todo dia, caco de vidro cortando a pele, arrebenta o peito com socos e nicotina, meu bem, ele que sujou o sangue com aquelas merdas todas, cada lembrança machucada percorrendo veias, ele ri, ele ri, rasgando o templo, seu corpo é templo, e se ele abriga alma com fome? a alma toda se debate dentro dele, a convulsão, em ato abominável ele se treme, vai mandando pra dentro aquela porra, cada um pede carinho a seu modo, não o julgue por isso, meu bem, e se um dia você precisar, e se um dia você se tremer todo, se um dia? olha, olha quem é ele agora. ele canabalizou aquela gente, e quando ele erra o passo e escorrega muita gente dentro de si, mas também a droga toda, dia sim dia não, noite sim noite sim, olho fundo, fuma cigarro e bate uma punheta e pede perdão, vai choroso se redimir, um minuto e só, depois que se foda, depois é Clarice e Caio, é Cortázar e Noll, João Antônio, os canabalizados, mas ele sabe, eles sim, ele não, hoje é dia de natal, sabia, e ele tem as gengivas sangrando,sem paciência pra historinha, com ele só coisa pesada, pedindo, pedindo amor, umas cervejas, deixando outros por aí, e ele metendo cartão de crédito, é um desespero capitalista o dele, ego eu id superego, egoísmo, niilismo, altruísmo, tomou da melhor bebida e no outro dia copo de vinho de 2 reais, ele freqüentando todas as rodas, ele que não se tolera, não se perdoa, não suporta, por isso de noite vai chorar quando não completar o ato menor, caco de vidro cortando a pele, seria esse seu maior ato de amor? Ele espera, ele ri, se você visse, ele ouve: quem beber desta água não tornará a ter sede, evangelho de João, mas e a sede dele, e vem chegando outra vez a hora, aperta os olhos e dói por dentro, vai sair por aí pedindo amor, não, isso você não ia querer ver, isso destrói sonho e esperança, melhor virar as costas e sair andando e deixa-lo, meu bem, ele vai se resolver, nada que meter o dedo na garganta e escrever um pouco e uns bons socos no próprio peito não resolvam. vá você ver a luz que ele ainda entrará um pouco mais no escuro, se escutar riso ou grito de socorro é melhor ignorar, meu bem, não é pras pessoas que se banham de manhã e dão bom dia e vão dormir à noite, é coisa pesada, é lógica outra, meu bem, é melhor ir embora, ficar bem distante, dá medo, dá medo, e você não vai quer isto num dia de natal, mas se a piedade te consumir, meu bem, prepara um caco afiado de vidro, prepara uma mistura de droga da boa, não se esqueça dos 60 mg de fluoxetina, e corre, corre ainda sim de olhos fechados, e não deixe ele te amar.

31
dez
09

Feliz Natal!

É que às vezes o sentir ultrapassa perigosamente o compreender. E então eu sucumbi – entreguei-me ao delírio, eu me entorpeci até a alma, eu confesso, o que eu senti foi maior que a minha compreensão. Enquanto à volta da mesa se saudavam com sorriso de esperança eu me queimava todo em ódio – não me era um sentimento cristão. Deixei de tentar compreender, deixei-me arder pela piedade, quase que fiz uma oração.  Não, eu não suportei, eu nunca suportara a piedade – ali, de dentro da sagrada ceia em família, eu fui a vela que se apagou, me era amargo na boca o gosto da ceia, eu precisei sair, eu confesso, eu me embriaguei todo do pior vinho, eu preferi então a orgia de Baco à aguda compreensão do sentido que é uma árvore de plástico e isopor, o frango ressecado na mesa, a imagem do Deus, os olhos azuis e os cabelos louros do Deus, o especial de natal na televisão. Sim, era a piedade, eu me estava ardendo todo em piedade.

Então eu brindei, com o símbolo do sangue sagrado eu brindei. Baco era em mim, e eu dancei, dancei ao som do fogo de artifício, das saraivadas de mil fuzis, do cumprimento de natal de quem até ontem não me suportara. Mas – o que é que me fez cair em piedade insuportável?

Os dois meninos, quando o relógio rebentava a meia-noite, eu vi que os dois meninos eram consolados – é que choravam. Um lembrava-se do pai, outro do irmão. E pai e irmão haviam sido levados, não em noite de neve, não nas ruas simétricas de onde qualquer momento viria o herói arrependido salvar o natal, ou a apresentadora produto de ponta na linha de produção – porque eles sempre vinham dizer e nos mostrar o verdadeiro sentido do natal, eles nos vinham dar a esperança.

Um, pai, o outro, irmão. Todos ali sabiam, sabiamos os motivos de serem levados, mas a piedade nos selava a boca. Ele está com Papai-do-Céu, dizia a mãe do pequeno, não, não chore, diziam os amigos do outro.

É que em noite de natal não se pode falar do proibido.

É que nos iam adestrando para a esperança – o fuzil banhado a ouro não cabia na lógica de natal. Só o azul dos olhos da imagem do Deus. Adestrados para a esperança, adestrados para a resignação, a boca selada para o grito, nossos olhos injetados de piedade. Uma piedade que é toda alerta na cidade sitiada.

Então eu acendi um cigarro, enchi meu cálice de plástico do símbolo do sangue sagrado – mas aproveitei, eu aproveitei ser também o símbolo de Baco. Eu confesso, sentir foi maior que compreender, eu não suportei.

De longe, de longe eu lançava meu olhar piedoso, meu olhar vivo e vermelho, eu entrei na fila da consolação, ardendo todo eu fui trêmulo de piedade e esperança adestrada.

É que às vezes o sentir ultrapassa perigosamente o compreender. E então eu sucumbi. E selando os olhos cumprimentei os presentes: feliz natal!

21
dez
09

A Maçã fora do escuro

Então me pediram com insistência “fale sobre isso”: eu não soube. Houve longa pausa. Procurava-se algo mas algo estava já longe ou já se havia perdido. Foi preciso enfiar a mão e logo o braço, perceber algo com os dedos, mexer, e só eu devia saber o que era, no meio de muita coisa dentro, não, não era um aquário, havia que entrar com medo e que o medo se deixasse fora do escuro e no escuro mesmo só eu devia saber. Fora, a longa pausa, a hipótese, o exame de toque, quer-se com fome, segue ardendo, ainda.

21
dez
09

A outra abstinência


Então eram dias que o medo – o grande medo – tomava um modo todo diferente: o medo de saber que não sabe. Era um tal desespero aquele que vinha – vinha de onde? era um tal desespero em saber, em sentir, um desespero de fazer parte – parte de quê? Eram dias de abstinência aqueles: comia demais, bebia demais, fumava demais, não se dormia – gastava-se.       Como reconstruir um Eu todo em fragmento? A palavra sentido agora soa quase como uma ofensa. Porque foi isso o que foi buscar – mas equivoca-se? É o muro ou é o onde? O onde?  Duas ou três possibilidades, mas largou tudo, feriu sem piedade porque tinha o desespero – desespero? o mesmo de agora? É que não sabe mais chorar. Perdeu como é precisar e precisa: como quem tem sede.

21
dez
09

Quanto à ancestralidade

Os mesmos olhos vermelhos que apenas abrem à luz de um dia – então eu queria a respiração de um cavalo, um cavalo cansado, eu que nem ao menos sustentara a minha respiração humana. E que se uma vez lembrasse respirar, não alcançaria o arfar do que é vivo – se pareceria ao do que sucumbe: e era pela respiração que eu me devia começar, respirando eu teria de me saber vivo? É que viver escapa à minha compreensão, e o cavalo apenas é – e isso lhe basta. O viver do cavalo eu poderia compreender – com perigo, mas compreender. Os mesmos olhos vermelhos que andaram cômodos e madrugada não eram os de um cavalo, eram os olhos de um homem ancestral, eram olhos de criatura remota, toda alerta de instinto era a natureza do bicho em mim, meu instinto ancestral. Eu não diferenciara do bicho? Eu quereria ser um cavalo cansado, mas sou dos que evoluíram, evoluí até chegar a quê? Até chegar ao que um cavalo não chegaria, o cansaço do cavalo é um cansaço do que é vivo, e o que vive é, o cavalo não sabe de um ancestral. O cavalo sabe da noite? Eu sei da noite, mas vi, eu vi meus ancestrais, o bicho primeiro a mim – minha evolução, meus olhos serão mais vermelhos que os dos que me precederam, mas nem todo o que evolui cairá na desgraça da compreensão. Quem não cai se iguala ao bicho? Eu estou caindo, eu fiz comparações entre mim e o cavalo, o tempo é para mim e o cavalo, mas ele é, e eu caí na compreensão. Deixo de ser como o bicho? A natureza do bicho queima em mim. O arder do instinto primeiro é em mim. É para o cavalo? Preciso, preciso quebrar a comparação de mim e o cavalo, não estou mais me entendendo. Entender? Há um caminho perigoso para entender, e eu que não sustento minha respiração não posso me aproximar. É que estou todo alerta, mas o que é que o cavalo e meus ancestrais tem que ver com isso? Os olhos, os olhos vermelhos. Outra vez estou me aproximando, outra vez estou caindo, estou comparando perigosamente – estou compreendendo? É preciso parar, é que meu arfar não é o de um cavalo vivo, estou precisando de outro caminho para uma compreensão. Mas o tempo é para mim e para o bicho. Então eu me amputo um membro, o membro que me liga a uma etapa de evolução, à etapa que não quero- e volto, volto decepado um passo na linha ancestral. É que tenho que me começar pela respiração e respirando ter de me saber vivo. Sem compreender? Não posso ainda esse risco, quero o elemento que é uma respiração. E o cavalo? Não me compararei mais a ti, criatura respirante, não cairei na desgraça enquanto tu arfas de plena vida. Mas quererei tão logo a respiração cuja compreensão hoje eu não poderia, quererei tão logo eu me saiba vivo. Porque a compreensão me é um destino. É o preço de minha evolução. Então meus olhos vermelhos andam ainda nos cômodos, meus olhos de instinto ancestral apenas abrem à luz do dia.

Então apenas abrem à luz do dia.

21
dez
09

Bela manhã de domingo

E voltando da noite, todo trêmulo eu me agarrei com força, ao estrado da cama eu me agarrei com força. Tal era a fome que eu sentia de uma mão alheia a qual eu pudesse segurar. Sequer podia manter-me de pé, eu não estava conseguindo, eu me estava entregando. E tal era a fome, e tal era o precisar, eu segurei com força o estrado de minha cama como se fosse mão amiga. Me era amargo na boca o gosto da falta, a falta que eu supria no meu desespero. Eu não sabia o que era perder-me, mas estou sabendo, ah eu estou sabendo. Se eu tivesse a mão, se houvesse a mão que me segurasse com força, eu choraria, e eu estou precisando chorar. Então mais um dia se me escapa a vida diante dos olhos, sei, sei que o que escrevo é lugar-comum, mas hoje me dói tanto que eu não saberia dizer de outra maneira, e eu preciso dizer, já que a mão que me seguraria não existe em carne e osso, ela sequer existe na minha esperança. Estou com medo, estou com medo dessa hora escura, estou com medo de não poder mais. Eu queria sair nesse dia de sol, eu queria caminhar e decidir começar outro destino, mas não estou podendo sozinho, no que eu me tornei? Mais um dia, mais um dia e eu verei anoitecer de dentro do quarto escuro, de dentro da escuridão de mim. Que fome, que fome eu tenho agora de uma outra mão, eu que já acreditei segurar-me sozinho. Como Atlas eu carrego o peso de um mundo. E eu não estou podendo mais, eu construí uma sombra negra, eu não estou sabendo me livrar. Se eu não estivesse preso na minha escuridão, eu sairia, eu sairia e buscaria uma mão que segurar. Preciso, preciso me deitar agora, o dia apenas começou, mas o peso está me doendo, eu venho calando um desespero, eu venho sufocando uma vida? Eu não estou podendo mais, preciso, quero a mão que me segure. Até que eu saia do escuro, até que me deixe a sombra negra, até que me passe um pouco a fome, porque eu sinto, eu sinto que estou indo para dentro de mim, e se não houver a mão alheia, ah já estou sentindo, estou sentindo que não vou voltar.

21
dez
09

Blues da Piedade no morro (Para Cazuza)

Tem piedade de mim, poeta

Que hoje aqui a tristeza é outra

E não tem cigarro, cachaça, fininho

Ou punheta que dê

Que hoje aqui se perdeu a viagem

Se chora de outras fomes

E no fim do dia tem saraivada

E bala e tiro e chumbo e porrada

Mas eu porra nenhuma

Pra isso é poesia?

Tem piedade de mim, poeta




Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.