“Recuperei um jeito de fumar olhando por detrás das janelas, vendo o que ninguém veria”
Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias

Para Tony. Meninos grandes não choram…
Mas meu instinto noturno me fez acender um cigarro: eu soprava então a fumaça através da janela aberta para a madrugada quando me dei conta, era tarde, e no entanto, eu não voltara, não daqueles segundos em que soltava sua mão, eu dando grandes baforadas para o ar gelado, e céu de chuva fina, cadê você? você, cadê, eu perguntando pro silêncio, onde está você agora?, porque eu no silêncio e a chuva vinha, a chuva vindo fina, faz dois dias que nem sequer sua voz, ali na via expressa agora só os carros, sem jardim e campo verde, meu bem, a via expressa e os morros de casas, um horizonte de cimento, a cidade miserando, e eu com fome de cigarros, esse aqui ainda não ardera todo, eu ardia, só os ônibus, eu de pé fumando por detrás da janela esperaria você descer do próximo, de onde estava podia se ver bem a parada de ônibus, mas chovia fino, 1 da manhã, a parada vazia, e sim, era feriado de 12 de outubro, já 3 comprimidos daquele tranqüilizante, meu bem, mas eu muito vivo, vai ser longa essa noite e de repente os cigarros que me iam acabando, sua mão, eu pedira pra soltar sua mão, há dois dias você que me prometeu: amor? seria esse seu erro maior? e você que não descia do próximo ônibus, esse que parou ali agora, venho perguntando faz 3 dias, meu bem, porque você quereria se doar, e eu lembro você dizer então pra mim: tomara que você encontre seu rumo, e foi no exato momento em que tremendo soltei sua mão e desde esse dia, meu bem, desde esse dia que.
E que repente vejo que me acabou um cigarro, fumaria o resto do maço, fumaria um após outro, mas estou muito vivo e ardendo, tenho medo de como percebo o tremor nas mãos quando tenho um cigarro entre os dedos, mas hoje nem a sua mão, então vou me deitar um pouquinho, meu bem, de pé é tão mais escuro, me deito curtindo fome, curtindo a fome, porque essa noite vai ser longa: hoje, faz dois dias que não como, nem sequer quando amanhecer, nem quando amanhecer, meu bem.

E surpreendido no meio da noite quando me perguntavam: você está perdido? era – mas é que questionado assim, como um susto, me restava dizer: não, é que vou comprar cigarros. Teria eu cigarro nos bolsos? sim, sempre algum, meio amassado, pois nunca se sabe quando vai acontecer novamente, nestes dias de pouca sobriedade é de cigarros e bolsos que tenho precisado, quando pressinto que vai ser, acendo cigarros, se você pudesse ver como estão minhas mãos agora, a cor dos meus dentes, e isto, isto que tenho por dentro, se você visse – mas eu não sei se são os anos de nicotina ou álcool ou se é… Eu vinha do lado oposto, no meio da noite dentro de uma cidade – porque cigarros tem a ver com cidades – até que a mim me questionaram: e o que é que no meu olhar dizia que eu estivesse alguma vez perdido? Eu que estava preste a vomitar também: coelinhos.Certas coisas, certas coisas devemos nunca perguntar – e se se pergunta, nunca, nunca no meio da noite, não se deve perguntar a alguém, não se olhos vivos e fundos falarem – você já viu como um cachorro vivo nos volve um olhar vivo que fala? “O cavalo lhe volveu uns olhos que falavam”, foi em Tolstói que lo? mas antes ainda nunca em susto, em surpresa jamais e. “Por la blanda arena que lame el mar, tu pequena huella no vuelve más”, eu ia ouvindo – no meio de uma cidade em noite me desmontavam – antes sequer que eu tivesse tempo de acender cigarros e. “ontem, durante horas e horas perdi minha montagem humana” é o que eu diria a quem me abordava: eu não contava que me alcançassem antes que eu chegasse ao outro lado, não, não era assim que eu planejara, não era assim que. 

