Arquivo de outubro \29\UTC 2010

29
out
10

Um cigarro e uma fome

“Recuperei um jeito de fumar olhando por detrás das janelas, vendo o que ninguém veria”

Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias


Para Tony. Meninos grandes não choram…

Mas meu instinto noturno me fez acender um cigarro: eu soprava então a fumaça através da janela aberta para a madrugada quando me dei conta, era tarde, e no entanto, eu não voltara, não daqueles segundos em que soltava sua mão, eu dando grandes baforadas para o ar gelado, e céu de chuva fina, cadê você? você, cadê, eu perguntando pro silêncio, onde está você agora?, porque eu no silêncio e a chuva vinha, a chuva vindo fina, faz dois dias que nem sequer sua voz, ali na via expressa agora só os carros, sem jardim e campo verde, meu bem, a via expressa e os morros de casas, um horizonte de cimento, a cidade miserando, e eu com fome de cigarros, esse aqui ainda não ardera todo, eu ardia, só os ônibus, eu de pé fumando por detrás da janela esperaria você descer do próximo, de onde estava podia se ver bem a parada de ônibus, mas chovia fino, 1 da manhã, a parada vazia, e sim, era feriado de 12 de outubro, já 3 comprimidos daquele tranqüilizante, meu bem, mas eu muito vivo, vai ser longa essa noite e de repente os cigarros que me iam acabando, sua mão, eu pedira pra soltar sua mão, há dois dias você que me prometeu: amor? seria esse seu erro maior? e você que não descia do próximo ônibus, esse que parou ali agora, venho perguntando faz 3 dias, meu bem, porque você quereria se doar, e eu lembro você dizer então pra mim: tomara que você encontre seu rumo, e foi no exato momento em que tremendo soltei sua mão e desde esse dia, meu bem, desde esse dia que.

E que repente vejo que me acabou um cigarro, fumaria o resto do maço, fumaria um após outro, mas estou muito vivo e ardendo, tenho medo de como percebo o tremor nas mãos quando tenho um cigarro entre os dedos, mas hoje nem a sua mão, então vou me deitar um pouquinho, meu bem, de pé é tão mais escuro, me deito curtindo fome, curtindo a fome, porque essa noite vai ser longa: hoje, faz dois dias que não como, nem sequer quando amanhecer, nem quando amanhecer, meu bem.

27
out
10

Refluxo à porta

“Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.”

Clarice Lispector, A experiência maior


A dois passos dessa porta, e se você não souber a dois passos o que fazer do dia? Porque você ia chegando, chave na mão, a mão que treme, a boca sem saliva, chegando, e de repente. Estará perdido? E de se achar, quando desce do ônibus você todo vem tremendo, o movimento pós-moderno na rua, mas dentro de você o susto no peito, ele percebeu que você olhou pra ele, você que imaginava, mas imaginava o quê?   dentro ou fora você disfarça, você quererá ser igual a ele?  um instinto te chama, mas você – só pelas janelas o movimento da vida, e você controlando as mil possibilidades, controlando, controlando o que? antes  de levantar e descer do ônibus e torcer pra que outro igual a ele, que quereria você ser igual a ele -  ele?  não cruze seu caminho até chegar à porta, chegou e. Que fazer? Eis você aí na porta. Você pensa nas olheiras, até pouco não esses olhos fundos, a qualquer hora isso explode, puta-que-pariu, você diz a si mesmo e se sente feliz, sente-se feliz por ter coragem de ao menos uma regra quebrada, os outros, cuidado com os outros, você numa cidade, se alguém grita você todo se amargura, fica despeitado, você ofendido. Mas agora, diante da porta, a dois passos, uma arritimia, uma gana de salivar, você querendo estar vivo, e os outros? Só um comprimido não adiantará, dois ou três e você nem saberá quem é, mas você sabe a dois passos da porta e uma chave que treme na mão? Quatro, cinco comprimidos e uma boa dose de álcool, um cigarro pra finalizar, e você não pulsa mais – mas quer viver, quer ser igual àquele filme, com trilha sonora e tudo, você um ator de Hollywood, feliz pra sempre, você até então sem trabalho, você até então não tão pós-moderno, você querendo se sentar num café francês, ou , você que pediu pro motorista do ônibus passar deixar faltando cinco centavos, tudo isso você ali a dois passos da porta, sem trilha sonora, cachorro latindo, linha de pipa nos fios, quanto tempo terá passado de você aí frente à porta? Os outros, e os outros, aos encontrões de arritimia, você mete a chave na porta – hoje, você diz, sonoramente e como viu direitinho naquele filme, hoje vou mudar minha vida -  e sorri: só por dentro ainda, só por dentro. Porque ao sair haverá ainda os outros: e, se entre eles, você se descobrirá – ou se escolherá quem é.

27
out
10

Carta de um fumante – com referências.

“Ah, tivesse eu sabido do que ia acontecer no quarto, e teria pegado mais cigarros antes de entrar: eu me consumia na vontade de fumar”

Clarice Lispector, A Paixão segundo G.H


E  surpreendido no meio da noite quando me perguntavam: você está perdido? era – mas é que questionado assim, como um susto, me restava dizer: não, é que vou comprar cigarros. Teria eu cigarro nos bolsos? sim, sempre algum, meio amassado, pois nunca se sabe quando vai acontecer novamente, nestes dias de pouca sobriedade é de cigarros e bolsos que tenho precisado, quando pressinto que vai ser, acendo  cigarros, se você pudesse ver como estão minhas mãos agora, a cor dos meus dentes, e isto, isto que tenho por dentro, se você visse – mas eu não sei se são os anos de nicotina ou álcool ou se é… Eu vinha do lado oposto, no meio da noite dentro de uma cidade – porque cigarros tem a ver com cidades – até que a mim me questionaram: e o que é que no meu olhar dizia que eu estivesse alguma vez perdido? Eu que estava preste a vomitar também: coelinhos.Certas coisas, certas coisas devemos nunca perguntar – e se se pergunta, nunca, nunca no meio da noite, não se deve perguntar a alguém, não se olhos vivos e fundos falarem – você já viu como um cachorro vivo nos volve um olhar vivo que fala? “O cavalo lhe volveu uns olhos que falavam”, foi em Tolstói que lo? mas antes ainda nunca em susto, em surpresa jamais e. “Por la blanda arena que lame el mar, tu pequena huella no vuelve más”, eu ia ouvindo – no meio de uma cidade em noite me desmontavam – antes sequer que eu tivesse tempo de acender cigarros e. “ontem, durante horas e horas perdi minha montagem humana” é o que eu diria a quem me abordava: eu não contava que me alcançassem antes que eu chegasse ao outro lado, não, não era assim que eu planejara, não era assim que.

Eu: que  agora poderia acender-me um dedo  -  e fumar

20
out
10

Medo

Quem beber desta água tornará a ter sede”

(Evangelho de João,Novo Testamento)


Eu chamava por mim, tentava segurar-me, mas minhas mãos não conseguiam. Havia um buraco aberto,um buraco negro, sugando com uma força incrível. Como um veículo numa longa curva, a inércia, a força centrípeda. Não adianta gritar porque ninguém vai ouvir. O buraco aberto, sugando, se cair não saio mais de lá. Eu to no escuro, não dá nem mais pra respirar. Abri a porta e entrei no quarto escuro pra fugir do medo.Eu não sabia que havia um buraco lá dentro. No início, espreitei por uma fresta o corredor que percorri, depois a porta não mais se abria. A porta não abre mais. Abri o baú escuro e guardei meus segredos lá dentro. O baú cheio de segredos, agora não quer se fechar mais. Eu me desespero, meu segredos expostos. Fico sentado em frente ao baú, não deixo ninguém se aproximar, há coisas escondidas lá dentro. Uma respiração curta na escuridão. A falta de oxigênio. O ar carregado. O fio que sai de dentro do baú. Agora estou amarrado..Silêncio.Um cão que ladra na noite, algo acontecendo lá fora, na noite, o pêndulo de um relógio antigo que balança cada vez mais rápido,incomum. Minhas mãos e pernas que não param um segundo, to amarrado e tudo querendo se soltar. Todo esse desespero, eu com medo de cair de vez no buraco. Eu amarrado, bato na porta. O bater é surdo, sangra, ninguém ouve. Sinto na boca o gosto do meu próprio sangue.

19
out
10

A consciência do medo contra mim

- Ah, mas eu sei dos teus segredos…Você faz tanto esforço pra esconder, pra guardar, e não adiantou, agora ta tudo saindo pelos poros,quem olha nessa tua cara já sabe o que ta acontecendo. Cala a boca, porra! Não terminei de falar ainda! Você acha que eles não tão sabendo? Porque não levanta essa cabeça? Ta com medo de me encarar, tu não é homem não,hein? Eles já perceberam que tem algo errado aí. Espera aí que ta chegando alguém, limpa esse olho rápido… E vê só a cara dele quando olha pra você, ele ta vendo que tem alguma coisa, to falando…é agora, ta chegando….!

Súbito, outro bater surdo do lado de fora. Eu caído no chão, gemo, a cabeça sangrando, arrebentada, se abriu de pensamentos, se abriu de tanto bater na porta. A poça de sangue à volta. Eu preciso que alguém entre pra me ajudar, mas estou entre o buraco e a porta e o baú transbordou de segredos. Penso, ainda outra vez, mais um segundo. Um jato de sangue jorra. O bater surdo continua do lado de fora. Entre os segredos e as feridas, o sangue coagulando no chão, chego à conclusão alguma. Já gostei do meu próprio sangue um dia.

19
out
10

Caminho

meu caminho

trilha certa se perde na reta

trilha reta se confunde na seta

a ponta que o sopro gira

caminho

sem saber se sou certo

quem era eu antes da reta

que não era antes d’eu cruzar

No meio do caminho

lembrei que algo ficou lá atrás

a chave, a chuva, o choro

caminho seco, sede

a chave no início, a porta

cadê?

não lembro se passou, se vem

se, cuando,existe

onde

ou

mais

19
out
10

Os segundos que precedem o adormecer


 

Hoje eu queria um adormecer leve e instantâneo, só pra que eu pudesse descansar um pouco, só isso, e depois viria alguém e me despertaria, apenas pegando em meus braços, me balançando um pouco, dizendo ser hora de acordar.E talvez então eu estivesse descansado e sereno, e a vida de todo dia ia prosseguir, não mais como antes, não mais como antes não. Hoje eu queria essa pequena morte, sem sonhos, sem lembranças, hoje eu queria muito descansar. E me apagar por um instante, não ainda pra sempre, sempre não tem fim, só um momento, e renascer depois.

Há uns segundos que precedem esse desfalecer. Continuamente me aproximo, mas ele não vem. Ele me engana, se esconde, eu o procuro. Corre veloz por entre os ares, eu ainda não sei voar. Às vezes se disfarça, me chama de longe, se enfia no meio da multidão. Ele sabe que estou cansado, não posso correr. Ele então tem pena e me deixa sentir um pouco do seu cheiro, a presença, mas se vai sempre quando chego muito perto e quando volto já não está mais.

Ontem, ainda outra vez, ele me enganou, prometeu deixar tocá-lo, eu o toquei, mas aquilo não era ele, era de novo qualquer outra coisa, das quais ele tantas vezes me prometeu que após, viriam os segundos…, aqueles segundos, e depois ele e a paz.Lembrei-me do nosso passado: atrás dele, no seu jogo de disfarces e alegorias, como um carnaval que nunca acabasse, o busquei nas noitadas sem fim, línguas e corpos que me incendiavam, a conversa de bar, falando de qualquer coisa, precisando só da companhia da outra pessoa, depois acabou o dinheiro, copo vazio, a volta pra casa, nada mais. Ele jurou descanso entre os entorpecidos: religião, marijuana, fluoxetina ou alguma dessas outras ideologias, talvez Marx. Ele jogava então outra vez comigo. E nunca estava lá.

Cigarro e cerveja me dão náusea, pessoas ,a sensação de desespero, quem sabe mais vazias que eu, sequer compreenderão meu pedido mudo de socorro. Ele disse que estaria em alguém, ele me engana, desconfio que me trai com outro. Aos poucos vou descobrindo onde ele não está.

Hoje eu queria só esse instante de descanso, não vou procurá-lo mais, estou muito cansado e o tempo parou. Eu só queria esse instante, pra acordar depois, e seguir a vida, do meu jeito simples, não há onde buscá-lo. Ele que continua correndo veloz, pelos ares, hoje eu o queria como um presente de aniversário. Os segundos que o precedem, e finalmente ele, e então a paz. Depois despertar, e respirar fundo, ele se foi pra sempre, e eu saberia voar.

19
out
10

Tão-mais-sozinho

O que o havia feito afogar-se em medo? ele volta outra vez a dores antigas, numa sexta-feira e era agosto, ele precisava de um abraço: mas e se ficasse muito longe? Era possível se estivesse lá, no longe? Ele que despertou com dor, ele que errou na rua . Ele errou: se ontem não quis voltar pra casa – se não voltasse, seria erro voltar? É que às vezes não queria, ou não podia, ou não sabia, mas ontem não quis mesmo e que se houvesse alguém além, não estivesse tão-mais sozinho e. Não. Nem um abraço de todo um dia lhe tiraria a fome, uma fome dói dentro dele, uma dor de fome é nele maior – num repente sentiu que ia chorar. É que de tanto esforço esqueceu o jeito de chorar. Não chorou

19
out
10

Madrugada no subúrbio I

“Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, sorrir pra não chorar”

Candeia

 

Vago pela madrugada, cidade de cães, meninos de rua e ratos, ando calado, mãos me tremem, só um marginal saberia minha solidão, tenho a fome e nunca como, ando com muita fome, muita pressa, anestesiado pra aguentar, três cigarros no maço amassado, um na boca, a cerveja quente na mão… malandros, trabalhadores, putas e viados circulam nas esquinas sujas. Enquanto não me acabam os cigarros, procuro meu entre-lugar entre essa gente, procuro me encontrar, e madrugada e cigarro e cerveja, se é hora de amanhecer e passou o efeito, talvez eu vá dormir com peito me doendo ou até chorar…




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