Hoje eu queria um adormecer leve e instantâneo, só pra que eu pudesse descansar um pouco, só isso, e depois viria alguém e me despertaria, apenas pegando em meus braços, me balançando um pouco, dizendo ser hora de acordar.E talvez então eu estivesse descansado e sereno, e a vida de todo dia ia prosseguir, não mais como antes, não mais como antes não. Hoje eu queria essa pequena morte, sem sonhos, sem lembranças, hoje eu queria muito descansar. E me apagar por um instante, não ainda pra sempre, sempre não tem fim, só um momento, e renascer depois.
Há uns segundos que precedem esse desfalecer. Continuamente me aproximo, mas ele não vem. Ele me engana, se esconde, eu o procuro. Corre veloz por entre os ares, eu ainda não sei voar. Às vezes se disfarça, me chama de longe, se enfia no meio da multidão. Ele sabe que estou cansado, não posso correr. Ele então tem pena e me deixa sentir um pouco do seu cheiro, a presença, mas se vai sempre quando chego muito perto e quando volto já não está mais.
Ontem, ainda outra vez, ele me enganou, prometeu deixar tocá-lo, eu o toquei, mas aquilo não era ele, era de novo qualquer outra coisa, das quais ele tantas vezes me prometeu que após, viriam os segundos…, aqueles segundos, e depois ele e a paz.Lembrei-me do nosso passado: atrás dele, no seu jogo de disfarces e alegorias, como um carnaval que nunca acabasse, o busquei nas noitadas sem fim, línguas e corpos que me incendiavam, a conversa de bar, falando de qualquer coisa, precisando só da companhia da outra pessoa, depois acabou o dinheiro, copo vazio, a volta pra casa, nada mais. Ele jurou descanso entre os entorpecidos: religião, marijuana, fluoxetina ou alguma dessas outras ideologias, talvez Marx. Ele jogava então outra vez comigo. E nunca estava lá.
Cigarro e cerveja me dão náusea, pessoas ,a sensação de desespero, quem sabe mais vazias que eu, sequer compreenderão meu pedido mudo de socorro. Ele disse que estaria em alguém, ele me engana, desconfio que me trai com outro. Aos poucos vou descobrindo onde ele não está.
Hoje eu queria só esse instante de descanso, não vou procurá-lo mais, estou muito cansado e o tempo parou. Eu só queria esse instante, pra acordar depois, e seguir a vida, do meu jeito simples, não há onde buscá-lo. Ele que continua correndo veloz, pelos ares, hoje eu o queria como um presente de aniversário. Os segundos que o precedem, e finalmente ele, e então a paz. Depois despertar, e respirar fundo, ele se foi pra sempre, e eu saberia voar.