Arquivo de 19 outubro, 2010

19
out
10

A consciência do medo contra mim

- Ah, mas eu sei dos teus segredos…Você faz tanto esforço pra esconder, pra guardar, e não adiantou, agora ta tudo saindo pelos poros,quem olha nessa tua cara já sabe o que ta acontecendo. Cala a boca, porra! Não terminei de falar ainda! Você acha que eles não tão sabendo? Porque não levanta essa cabeça? Ta com medo de me encarar, tu não é homem não,hein? Eles já perceberam que tem algo errado aí. Espera aí que ta chegando alguém, limpa esse olho rápido… E vê só a cara dele quando olha pra você, ele ta vendo que tem alguma coisa, to falando…é agora, ta chegando….!

Súbito, outro bater surdo do lado de fora. Eu caído no chão, gemo, a cabeça sangrando, arrebentada, se abriu de pensamentos, se abriu de tanto bater na porta. A poça de sangue à volta. Eu preciso que alguém entre pra me ajudar, mas estou entre o buraco e a porta e o baú transbordou de segredos. Penso, ainda outra vez, mais um segundo. Um jato de sangue jorra. O bater surdo continua do lado de fora. Entre os segredos e as feridas, o sangue coagulando no chão, chego à conclusão alguma. Já gostei do meu próprio sangue um dia.

19
out
10

Caminho

meu caminho

trilha certa se perde na reta

trilha reta se confunde na seta

a ponta que o sopro gira

caminho

sem saber se sou certo

quem era eu antes da reta

que não era antes d’eu cruzar

No meio do caminho

lembrei que algo ficou lá atrás

a chave, a chuva, o choro

caminho seco, sede

a chave no início, a porta

cadê?

não lembro se passou, se vem

se, cuando,existe

onde

ou

mais

19
out
10

Os segundos que precedem o adormecer


 

Hoje eu queria um adormecer leve e instantâneo, só pra que eu pudesse descansar um pouco, só isso, e depois viria alguém e me despertaria, apenas pegando em meus braços, me balançando um pouco, dizendo ser hora de acordar.E talvez então eu estivesse descansado e sereno, e a vida de todo dia ia prosseguir, não mais como antes, não mais como antes não. Hoje eu queria essa pequena morte, sem sonhos, sem lembranças, hoje eu queria muito descansar. E me apagar por um instante, não ainda pra sempre, sempre não tem fim, só um momento, e renascer depois.

Há uns segundos que precedem esse desfalecer. Continuamente me aproximo, mas ele não vem. Ele me engana, se esconde, eu o procuro. Corre veloz por entre os ares, eu ainda não sei voar. Às vezes se disfarça, me chama de longe, se enfia no meio da multidão. Ele sabe que estou cansado, não posso correr. Ele então tem pena e me deixa sentir um pouco do seu cheiro, a presença, mas se vai sempre quando chego muito perto e quando volto já não está mais.

Ontem, ainda outra vez, ele me enganou, prometeu deixar tocá-lo, eu o toquei, mas aquilo não era ele, era de novo qualquer outra coisa, das quais ele tantas vezes me prometeu que após, viriam os segundos…, aqueles segundos, e depois ele e a paz.Lembrei-me do nosso passado: atrás dele, no seu jogo de disfarces e alegorias, como um carnaval que nunca acabasse, o busquei nas noitadas sem fim, línguas e corpos que me incendiavam, a conversa de bar, falando de qualquer coisa, precisando só da companhia da outra pessoa, depois acabou o dinheiro, copo vazio, a volta pra casa, nada mais. Ele jurou descanso entre os entorpecidos: religião, marijuana, fluoxetina ou alguma dessas outras ideologias, talvez Marx. Ele jogava então outra vez comigo. E nunca estava lá.

Cigarro e cerveja me dão náusea, pessoas ,a sensação de desespero, quem sabe mais vazias que eu, sequer compreenderão meu pedido mudo de socorro. Ele disse que estaria em alguém, ele me engana, desconfio que me trai com outro. Aos poucos vou descobrindo onde ele não está.

Hoje eu queria só esse instante de descanso, não vou procurá-lo mais, estou muito cansado e o tempo parou. Eu só queria esse instante, pra acordar depois, e seguir a vida, do meu jeito simples, não há onde buscá-lo. Ele que continua correndo veloz, pelos ares, hoje eu o queria como um presente de aniversário. Os segundos que o precedem, e finalmente ele, e então a paz. Depois despertar, e respirar fundo, ele se foi pra sempre, e eu saberia voar.

19
out
10

Tão-mais-sozinho

O que o havia feito afogar-se em medo? ele volta outra vez a dores antigas, numa sexta-feira e era agosto, ele precisava de um abraço: mas e se ficasse muito longe? Era possível se estivesse lá, no longe? Ele que despertou com dor, ele que errou na rua . Ele errou: se ontem não quis voltar pra casa – se não voltasse, seria erro voltar? É que às vezes não queria, ou não podia, ou não sabia, mas ontem não quis mesmo e que se houvesse alguém além, não estivesse tão-mais sozinho e. Não. Nem um abraço de todo um dia lhe tiraria a fome, uma fome dói dentro dele, uma dor de fome é nele maior – num repente sentiu que ia chorar. É que de tanto esforço esqueceu o jeito de chorar. Não chorou

19
out
10

Madrugada no subúrbio I

“Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, sorrir pra não chorar”

Candeia

 

Vago pela madrugada, cidade de cães, meninos de rua e ratos, ando calado, mãos me tremem, só um marginal saberia minha solidão, tenho a fome e nunca como, ando com muita fome, muita pressa, anestesiado pra aguentar, três cigarros no maço amassado, um na boca, a cerveja quente na mão… malandros, trabalhadores, putas e viados circulam nas esquinas sujas. Enquanto não me acabam os cigarros, procuro meu entre-lugar entre essa gente, procuro me encontrar, e madrugada e cigarro e cerveja, se é hora de amanhecer e passou o efeito, talvez eu vá dormir com peito me doendo ou até chorar…




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