Arquivo de 27 outubro, 2010

27
out
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Refluxo à porta

“Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.”

Clarice Lispector, A experiência maior


A dois passos dessa porta, e se você não souber a dois passos o que fazer do dia? Porque você ia chegando, chave na mão, a mão que treme, a boca sem saliva, chegando, e de repente. Estará perdido? E de se achar, quando desce do ônibus você todo vem tremendo, o movimento pós-moderno na rua, mas dentro de você o susto no peito, ele percebeu que você olhou pra ele, você que imaginava, mas imaginava o quê?   dentro ou fora você disfarça, você quererá ser igual a ele?  um instinto te chama, mas você – só pelas janelas o movimento da vida, e você controlando as mil possibilidades, controlando, controlando o que? antes  de levantar e descer do ônibus e torcer pra que outro igual a ele, que quereria você ser igual a ele -  ele?  não cruze seu caminho até chegar à porta, chegou e. Que fazer? Eis você aí na porta. Você pensa nas olheiras, até pouco não esses olhos fundos, a qualquer hora isso explode, puta-que-pariu, você diz a si mesmo e se sente feliz, sente-se feliz por ter coragem de ao menos uma regra quebrada, os outros, cuidado com os outros, você numa cidade, se alguém grita você todo se amargura, fica despeitado, você ofendido. Mas agora, diante da porta, a dois passos, uma arritimia, uma gana de salivar, você querendo estar vivo, e os outros? Só um comprimido não adiantará, dois ou três e você nem saberá quem é, mas você sabe a dois passos da porta e uma chave que treme na mão? Quatro, cinco comprimidos e uma boa dose de álcool, um cigarro pra finalizar, e você não pulsa mais – mas quer viver, quer ser igual àquele filme, com trilha sonora e tudo, você um ator de Hollywood, feliz pra sempre, você até então sem trabalho, você até então não tão pós-moderno, você querendo se sentar num café francês, ou , você que pediu pro motorista do ônibus passar deixar faltando cinco centavos, tudo isso você ali a dois passos da porta, sem trilha sonora, cachorro latindo, linha de pipa nos fios, quanto tempo terá passado de você aí frente à porta? Os outros, e os outros, aos encontrões de arritimia, você mete a chave na porta – hoje, você diz, sonoramente e como viu direitinho naquele filme, hoje vou mudar minha vida -  e sorri: só por dentro ainda, só por dentro. Porque ao sair haverá ainda os outros: e, se entre eles, você se descobrirá – ou se escolherá quem é.

27
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10

Carta de um fumante – com referências.

“Ah, tivesse eu sabido do que ia acontecer no quarto, e teria pegado mais cigarros antes de entrar: eu me consumia na vontade de fumar”

Clarice Lispector, A Paixão segundo G.H


E  surpreendido no meio da noite quando me perguntavam: você está perdido? era – mas é que questionado assim, como um susto, me restava dizer: não, é que vou comprar cigarros. Teria eu cigarro nos bolsos? sim, sempre algum, meio amassado, pois nunca se sabe quando vai acontecer novamente, nestes dias de pouca sobriedade é de cigarros e bolsos que tenho precisado, quando pressinto que vai ser, acendo  cigarros, se você pudesse ver como estão minhas mãos agora, a cor dos meus dentes, e isto, isto que tenho por dentro, se você visse – mas eu não sei se são os anos de nicotina ou álcool ou se é… Eu vinha do lado oposto, no meio da noite dentro de uma cidade – porque cigarros tem a ver com cidades – até que a mim me questionaram: e o que é que no meu olhar dizia que eu estivesse alguma vez perdido? Eu que estava preste a vomitar também: coelinhos.Certas coisas, certas coisas devemos nunca perguntar – e se se pergunta, nunca, nunca no meio da noite, não se deve perguntar a alguém, não se olhos vivos e fundos falarem – você já viu como um cachorro vivo nos volve um olhar vivo que fala? “O cavalo lhe volveu uns olhos que falavam”, foi em Tolstói que lo? mas antes ainda nunca em susto, em surpresa jamais e. “Por la blanda arena que lame el mar, tu pequena huella no vuelve más”, eu ia ouvindo – no meio de uma cidade em noite me desmontavam – antes sequer que eu tivesse tempo de acender cigarros e. “ontem, durante horas e horas perdi minha montagem humana” é o que eu diria a quem me abordava: eu não contava que me alcançassem antes que eu chegasse ao outro lado, não, não era assim que eu planejara, não era assim que.

Eu: que  agora poderia acender-me um dedo  -  e fumar




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