“Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.”
Clarice Lispector, A experiência maior
A dois passos dessa porta, e se você não souber a dois passos o que fazer do dia? Porque você ia chegando, chave na mão, a mão que treme, a boca sem saliva, chegando, e de repente. Estará perdido? E de se achar, quando desce do ônibus você todo vem tremendo, o movimento pós-moderno na rua, mas dentro de você o susto no peito, ele percebeu que você olhou pra ele, você que imaginava, mas imaginava o quê? dentro ou fora você disfarça, você quererá ser igual a ele? um instinto te chama, mas você – só pelas janelas o movimento da vida, e você controlando as mil possibilidades, controlando, controlando o que? antes de levantar e descer do ônibus e torcer pra que outro igual a ele, que quereria você ser igual a ele - ele? não cruze seu caminho até chegar à porta, chegou e. Que fazer? Eis você aí na porta. Você pensa nas olheiras, até pouco não esses olhos fundos, a qualquer hora isso explode, puta-que-pariu, você diz a si mesmo e se sente feliz, sente-se feliz por ter coragem de ao menos uma regra quebrada, os outros, cuidado com os outros, você numa cidade, se alguém grita você todo se amargura, fica despeitado, você ofendido. Mas agora, diante da porta, a dois passos, uma arritimia, uma gana de salivar, você querendo estar vivo, e os outros? Só um comprimido não adiantará, dois ou três e você nem saberá quem é, mas você sabe a dois passos da porta e uma chave que treme na mão? Quatro, cinco comprimidos e uma boa dose de álcool, um cigarro pra finalizar, e você não pulsa mais – mas quer viver, quer ser igual àquele filme, com trilha sonora e tudo, você um ator de Hollywood, feliz pra sempre, você até então sem trabalho, você até então não tão pós-moderno, você querendo se sentar num café francês, ou , você que pediu pro motorista do ônibus passar deixar faltando cinco centavos, tudo isso você ali a dois passos da porta, sem trilha sonora, cachorro latindo, linha de pipa nos fios, quanto tempo terá passado de você aí frente à porta? Os outros, e os outros, aos encontrões de arritimia, você mete a chave na porta – hoje, você diz, sonoramente e como viu direitinho naquele filme, hoje vou mudar minha vida - e sorri: só por dentro ainda, só por dentro. Porque ao sair haverá ainda os outros: e, se entre eles, você se descobrirá – ou se escolherá quem é.
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